Tenho poucas memórias dos anos em que tudo ainda parecia simples. Nasci em Viena, no outono de 1882, e cresci numa casa burguesa onde o silêncio tinha mais peso do que as palavras. Meu pai, Philipp Bauer, era um homem de presença forte — industrial têxtil, inteligente, ambicioso. Minha mãe, Käthe, era o avesso disso: retraída, encerrada nos afazeres domésticos, indiferente ao que não fosse a ordem imaculada da casa.
Quando eu tinha seis anos, meu pai adoeceu pela primeira vez. Tuberculose, disseram os médicos. A doença trouxe consigo uma luz diferente para dentro do lar — não a luz da esperança, mas aquela luz pálida que antecede a perda. Ele se foi para o campo curar os pulmões. Voltou mais magro, mais silencioso. Voltou também diferente: com uma necessidade de viver que a doença às vezes acende nas pessoas.
Minha mãe não acompanhou essa mudança. Ficou onde sempre esteve — dentro das panelas, das cortinas, do vazio doméstico que ela chamava de ordem. Otto, meu irmão, era o predileto. Eu aprendi cedo o que significa crescer sendo vista sem ser enxergada.